30 junho 2009

FIM DE EXPEDIENTE - CONTO


Pelo menos uma vez por semana, sempre às terças-feiras, o blog vai publicar alguns contos de escritores brasileiros e estrangeiros, que é a forma literária de que mais gosto.


E começa hoje com Humberto de Campos, que escreveu vários livros e ínumeros contos e usou os pseudônimos de Conselheiro XX, Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, tendo sido o terceiro a ocupar acadeira 20, cujo patrono é Joaquim Manoel de Macedo. Mais conhecido entre os espíritas, mas era um escritor de mão cheia. Leia o conto abaixo:


A GALINHA
*Humberto de Campos



A maior tristeza que Dona Hortência levaria deste mundo, seria a de morrer sem acalentar um netinho. Mãe de uma filha única, tratou, logo, de casá-la, quando a menina não tinha, ainda, dezesseis anos. E como sucede sempre a toda mãe que se apressa, casou-a mal, de modo a ter como genro o Eusébio Duarte, "almofadinha" sem reputação, sem dinheiro e sem saúde, para quem o casamento foi mais um encosto do que, mesmo, um caso de coração.

Casada a menina, a pobre senhora declarou, após o jantar, na presença da filha e de alguns convidados:

— Eu tenho aí no quintal uma galinha carijó, que é, mesmo, uma beleza; mas, essa, eu só a mato no dia em que tiver certeza de que meu primeiro neta já está em caminho para este mundo!

A noite de núpcias da filha foi para Dona Hortência o que é, sempre, para as mães amorosas: um tormento. Coração alarmado, ouvido à escuta, olhos escancarados na treva, não dormiu um instante. Manhãzinha, levantou-se, e, antes, mesmo, de preparar-se para descer, foi bater à porta do quarto dos noivos.

— Mariazinha? — chamou, — Mariazinha?

— Que é, mamãe? — respondeu, de dentro, estranhando, a voz da filha.

E a velha, muito terna, muito branda, muito doce:

— Posso matar a galinha?

Obtido em pt.wikisource.org/wiki
Conto publicado em Grãos de Mostarda.

*Humberto de Campos Veras (Miritiba (MA), 25 de outubro de 1886 — Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 1934) foi um jornalista, político e escritor brasileiro.

Um comentário:

  1. Agora momento relax não só às sextas mas também às terças!!! Legal... mas bem que em vez de textos espíritas vc podia colocar textos católicos!!!
    P.S. Viu que eu aprendi a colocar os acentos??? Sou chique agora!!!
    Beijos,
    Palpiteira.

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